Carros ruins; por que os jornalistas não falam? Entenda a questão
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| Era assim que a gente deveria avaliar carros segundo alguns. |
Eu adoro gelatina, mas minha irmã não gosta muito. Quem de nós dois tá certo? Se você também gosta vai dizer que sou eu; se não gosta vai dizer que é ela, porém a verdade é que ninguém tá certo nessa história. Não existe certo ou errado quando se trata de gosto. Gosto é algo individual e, portanto, só diz respeito ao seu devido possuidor.
Feio ou bonito, rápido ou lento, bom ou ruim... Existe um quase sem-fim de atributos que fogem do campo do "é certo" ou "é errado" porque na verdade se tratam de gostos e/ou percepções específicas de fulano ou sicrano. Um tênis da Nike pode ser feio pra mim e lindo pra você, mas o da Adidas pode ser o contrário; lindo pra mim, horrível pra você. E ninguém tá certo ou errado.
Falar de carro é a mesmíssima coisa, tintim por tintim, absolutamente igual. O que eu acho bonito você pode achar feio. O que eu acho lento você pode achar rápido. O que eu acho confortável você pode achar ríspido. Concordamos com isso, certo? Acho que já deu pra qualquer um entender que OPINIÃO é algo PESSOAL. Vamos ao cerne da questão.
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| Foto: popsci.com |
"Ravito, comprei um carro XYZ e achei horrível, mas a imprensa diz que é bom. Por que vocês não falam a verdade?"
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| Você come insetos? Eu não, mas muita gente pelo mundo come e adora. Foto: RMIT University |
"Mas eu vi várias pessoas reclamando daquele carro, um monte de queixa e grupo de proprietários condenando e a imprensa não falou nada."
Pra começar: todo grupo de pessoas insatisfeitas com algo possui outro grupo satisfeito e é justamente a IMPARCIALIDADE do jornalismo que nos permite lembrar disso e entender a dimensão da questão. Um produto A, B ou C pode causar desgosto no consumidor por inúmeros motivos e nós sempre buscamos entender os ocorridos antes de apontar dedos acusadores.
Em segundo lugar: a imprensa fala, mas apenas quando o motivo da frustração ficou claro e abrange uma grande quantidade de consumidores - ou quando causou prejuízo severo a um em particular. É imprescindível ter cautela ao se atribuir responsabilidades e é justamente por isso que não saímos acusando inflamados por qualquer sentimento que seja. Não é o nosso papel.
Por fim, não é raro a imprensa ensinar os caminhos que você deve percorrer quando tiver problemas com algum produto - e isso não se resume aos carros. As pessoas tendem a se inflamar e querer fazer escândalo, mas a maioria dos casos costuma ser resolvida com educação, diálogo e conhecimento dos próprios direitos. Botar a boca no trombone é o último recurso.
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| Foto: Mark Green/LinkedIn |
"Tá, entendi, mas por que vocês só falam quando é bom e não quando é ruim?"
É claro que a gente fala; só não fazemos da forma que você espera. Tudo na vida pode (e deve) ser feito com elegância e educação: dizer que é "uma bosta" ou "um lixo", além de não ser nem um pouco profissional, chega a ser antiético. Se a nossa busca é por entregar um material de padrão mais elevado e diferente, esperar reações que qualquer um teria é contraditório.
Além disso lembre-se do começo do texto: opinião é algo pessoal e se existe algo mais importante do que a opinião particular do jornalista que avaliou aquele carro XYZ é, sem dúvida, a percepção dele sobre quem é o público-alvo daquele carro. Nosso papel é fazer análises, não emitir opiniões; ainda assim, quando o fazemos, buscamos fazer com profissionalismo.
Pra encerrar: já tem muita gente na internet gritando na sua cara, querendo determinar o que você deve gostar ou não. O jornalismo automotivo não quer berrar como um militante em uma passeata, mas orientar como um bom profissional deve fazer. Você não precisa entender os meandros do ofício assim como não precisa entender de medicina ou edificações.
Busque informação de fonte confiável e acredite no trabalho do bom jornalismo. Quem está atrás da tela escrevendo sabe o que está fazendo.



