911 GT3 RS é um recado da Porsche pro mundo; veja nossa matéria especial

Porsche 911 GT3 RS é a materialização da essência e do legado da marca





Ele é o 911 com motor aspirado mais brutal que existe e se consagrou como uma das configurações mais estimadas do clássico alemão. Conheça-o em toda a sua intimidade.


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Cor "Lava Orange" é um clássico. Hoje faz parte do programa Paint-to-Sample (Exclusive Manufaktur) e custa mais de 80 mil reais.

Eu não apenas trabalho com carros; eu converso sobre eles todos os dias com várias pessoas. Familiares, amigos, leitores... Converso sobre carros com qualquer um. Gosto de conhecer pontos de vista, opiniões, gostos - entender como o público enxerga os automóveis de hoje e o mercado automotivo como um todo. Sempre existem aquelas empresas que se destacam em seus respectivos segmentos e, falando de carros, uma dessas empresas é a Porsche; a companhia fundada em 1931 é reconhecida mundialmente pelas obras de arte sobre rodas, seu legado riquíssimo no universo das competições e, como não poderia ser diferente, as polêmicas.


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Lanternas em estilo "clear", com lente incolor, eram opcionais e transformam o visual do 911.

Da criação do Cayenne décadas atrás, um impensável SUV, até o nascimento do Panamera, um coupé de quatro portas, passando pelo Macan que é outro SUV, a trajetória da Porsche tem lá os seus momentos delicados. Aqui no Brasil, por exemplo, a montadora virou queridinha de... bem... pessoas que não são o público-alvo dela e que se tornam notórias por infringir a lei das mais variadas formas. É uma visão que tem crescido entre as diversas pessoas com quem converso e eu devo dizer, sem satisfação alguma, que enxergo da mesma forma. Tanto é que o próprio cliente habitual Porsche, em alguns casos, já não encara a empresa como antes.


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Rodas de cubo rápido são parte da herança de corrida do GT3 RS.

Acontece que a Porsche, é claro, sabe disso e faz questão de lembrar a todos que ela mantém o zelo e a preocupação por todas as qualidades que a eternizaram nesses quase 100 anos de história, principalmente porque ela não tem culpa nisso; é seguro dizer que todo mundo (ou quase todo mundo) quer ter um Porsche na garagem, mas nem todo mundo pode. A empresa tem seus produtos mais "populacheiros", entre muitas aspas, os especiais e os mais-do-que-especiais, a exemplo da joia que trago com muito prazer para o Volta Rápida: o 911 GT3 RS, uma das versões mais animalescas e carismáticas do esportivo germânico.


Eis o primeiro 911 GT3 RS de todos os tempos. O original. Foto: Divulgação

Do ódio ao respeito

A variante GT3 RS nasceu em 2003, justo na época deste que era o 911 menos querido do público: o 996, pioneiro nas motorizações arrefecidas por líquido e nos faróis sem o tradicional formato de elipse. A Porsche havia lançado o GT3 em 1999 como uma configuração focada em performance acima de tudo, abrindo mão de confortos como isolamento acústico, teto solar, bancos traseiros, ar-condicionado (opcional oferecido sem custo) e coisas do tipo. Deu tão certo que, pouco tempo depois, o GT3 RS nasceu ainda mais extremo, baseado na segunda fase da geração 996. Desde então, todos os sucessores passaram a ter um GT3 RS no catálogo.


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GT3 RS conta com rodas traseiras esterçantes de série.

O modelo da nossa matéria surgiu 12 anos depois do nascimento do original, durante o Salão de Genebra de 2015, sendo o 4º GT3 RS na linha do tempo. Baseado na geração 991.1, tornou-se um dos mais populares do mundo automotivo por conta de sua frequente aparição nos mais diversos jogos de corrida, tanto arcades quanto simuladores. Curiosamente foi o primeiro GT3 RS a não ostentar, de fábrica, as faixas características nas laterais cujas cores combinavam com as rodas, o que deixou o visual deveras "discreto"... se é que dá pra chamar um 911 de discreto, ainda mais com um aerofólio enorme na extremidade traseira.


Faróis PDLS+ (Porsche Dynamic Light System Plus) também eram opcionais. Ambos os projetores em LED são funcionais.

Ah: aerofólio 100% funcional, que fique claro. Absolutamente tudo o que você vê em um 911 GT3 RS tem propósito: os para-lamas alargados acomodam rodas e pneus maiores que, por sua vez, colaboram com a estabilidade e possibilitam o uso de discos de freio mais poderosos - aqui estamos falando dos freios em composto de carbono-cerâmica, famosos pela sigla PCCB (Porsche Ceramic Composite Brake), munidos de discos de 380mm tanto na dianteira quanto na traseira, tão grandes quanto uma roda aro 15. Os para-lamas musculosos também permitem bitolas mais largas, o que é sempre bem-vindo em um modelo feito para as pistas.


Pneus dianteiros são 265/35 ZR20 e os traseiros são 325/30 ZR21.

Ainda falando dos para-lamas, esse foi o primeiro GT3 RS a trazer aletas e dutos em ambos os pares, visando auxiliar no arrefecimento do conjunto mecânico. O grande aerofólio na traseira pode gerar mais de 200kg de downforce (pressão do ar sobre a carroceria) enquanto o teto é de magnésio e as rodas são de cubo rápido. Por dentro, a gaiola de proteção contra capotamentos é de série, tal qual os bancos concha com cintos de múltiplos pontos e acabamento traseiro em fibra de carbono; as tradicionais maçanetas internas foram substituídas por tiras. Ar-condicionado e central multimídia, como antes, eram opcionais que estão presentes no "nosso" carro.


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Bancos concha te abraçam, literalmente, e trazem tanto os cintos de competição quanto os tradicionais.

E quanto ao motor? Infelizmente você não pode vê-lo, mas pode sentir e ouvir muito bem. Temos aqui um 4.0 de seis cilindros contrapostos (flat-six, bebê!), naturalmente aspirado e berrador, entregando nada menos do que 500cv e 46,9kgfm unicamente para as rodas traseiras, controlado por um câmbio PDK (automatizado de dupla embreagem) de sete marchas - não há opção de manual. Trata-se de um motor que passa dos 8 mil rpm e que produz uma sinfonia digna de sir Ludwig van Beethoven; aliado ao PDK que troca marchas na velocidade de um raio, o 991.1 GT3 RS pode ir de 0 a 100km/h em apenas 3,3 segundos e bate 310km/h de máxima.


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Cabine traz alcantara e fibra de carbono por várias partes.

"Ravito, não entendi bulhufas do que você disse até agora" - desculpa. É que estar com um GT3 RS e não se aprofundar nos detalhes técnicos dele é um pecado, mas concordo que a melhor parte é a experiência prática. Pois bem; entrar e sair dele é difícil, pois os bancos concha trazem abas extremamente pronunciadas que exigem esforço, mas tudo melhora quando você se ajeita neles. Acomodado no lugar do motorista, a gente consegue se sentir naqueles simuladores profissionais; tudo deixa claro o caráter "track weapon" do esportivo. Não restam dúvidas de que você está em um monstro devorador de asfalto.


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Motor fica escondido pela carroceria e por outros detalhes.

Pego a chave igualmente finalizada em Lava Orange, um capricho interessante que a Porsche oferece, e a insiro à esquerda do volante. Giro-a levemente e o flat-six desperta de forma discreta até demais, mas logo pressiono o botão do difusor de escape no console central e o "borbulhar" fica encorpado, mais grave e mais alto. Solto o freio de estacionamento, um switch na parte inferior do painel à esquerda da direção, e começo a manobrar o GT3 RS para posicioná-lo no local das fotos. A suavidade é surpreendente, porém a falta de sensores e câmera de ré faz você temer pela própria vida caso raspe em algo. Felizmente, não raspei (por isso ainda estou vivo).


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Conta-giros ao centro e chave à esquerda: tradições.

Estávamos em um dos encontros de carros esportivos organizados pelos amigos da Boost BR, o que significa que o GT3 RS dividiu espaço com vários outros exóticos e superesportivos de alto calibre. Ainda assim, mesmo com 10 anos nas costas, o "nosso" 911 laranja virava cabeças e torcia pescoços por onde passava, reforçando a sedução magnética e irresistível da receita germânica aplicada ao brinquedo de pista. Mesmo quem não entende do universo automotivo consegue perceber que há algo diferente, especial, que vai além do que se encontra nos 911 que vemos aos montes nas capitais. Sabe o que isso significa?


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Até as soleiras são em fibra de carbono.

Que o GT3 RS é um mensageiro. Um representante. Um porta-voz. O 911 GT3 RS existe até hoje porque é um lembrete de que a Porsche valoriza tudo o que a trouxe até aqui através de todos esses anos. O GT3 RS existe porque a Porsche quer dizer ao mundo que tradição não se coloca de lado. Não se esquece. Muito pelo contrário: a tradição é o passado que ajuda a moldar o futuro. É pela tradição que o GT3 RS evolui ano após ano, tornando-se mais rápido, mais afiado. Mais preciso. Mais chocante. Mais icônico. Mais Porsche. Não é ele que paga as contas da casa, mas é ele que encanta quem ajuda a Porsche a pagá-las.


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Mais um modelo épico no Volta Rápida. Que fase!

Ele estampa quadros, é pintado em paredes, vira wallpaper de celular ou de WhatsApp. É com ele que nossos filhos se divertem jogando Forza, Need For Speed ou Gran Turismo, falando pra gente que terão um desse quando crescerem. Ele ajuda a vender esses jogos e a estabelecer sonhos. O melhor de tudo é que, embora seja capaz de fazer tempos absurdos em circuitos, talvez a missão mais importante e valorosa do GT3 RS seja, de fato, lembrar ao mundo o que a Porsche é capaz de fazer. Na verdade, para encerrarmos, lembrei de outra tão importante quanto: ajudar a manter vivos e fortes os carros viscerais, feitos por paixão acima de lucro.