Leapmotor C10 é o verdadeiro smartphone sobre rodas; confira nosso teste

Leapmotor C10 leva o minimalismo ao extremo; testamos a versão BEV, 100% elétrica


Primeiro produto da nova montadora chinesa no Brasil entrega muito espaço interno, boa condução elétrica e digitalização em excesso. Testamos por uma semana e mais de 600km.


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A cor do nosso modelo testado se chama Verde Boreal e é oferecida sem custo, tal qual as outras.

Carregar na tomada, desbloquear por senha, baixar atualizações, conectar via wi-fi ou bluetooth... Por anos, essas ações foram exclusivas de dispositivos eletrônicos que utilizamos todos os dias, tanto domésticos quanto portáteis, mas elas também chegaram ao mundo dos automóveis em um curto espaço de tempo. É o futuro e ele veio com os dois pés na porta.


Nossa avaliação mais recente foi com um modelo que estreou no Brasil há menos de um ano e que, sem dúvidas, leva o apelido de "smartphone com rodas" mais a sério do que a maioria dos carros. É o C10, da novata Leapmotor, que chegou com duas opções de motorização: uma híbrida e uma puramente elétrica. Nosso primeiro contato com a marca se deu através da elétrica.


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Lanternas trazem lente incolor; quem faz a cor dos elementos são os LEDs quando acesos.

Quê? Lipmótor?

Isso aí. A Leapmotor (de pronúncia LIPMÓTOR, sendo "leap" o termo em inglês pra "salto") é uma empresa chinesa cuja gestação começou em 2015 com a fusão de alguns parceiros comerciais - a marca mesmo, com esse nome, surgiu em 2017. Seus primeiros veículos nasceram em 2019, mas foi somente em 2023 que a sua trajetória começou a se expandir pra outros cantos do mundo.


Em outubro de 2023 nasceu a Leapmotor International, uma aliança entre o grupo Stellantis (com 51% de participação) e a própria Leapmotor (com os 49% restantes), feita com o objetivo de coordenar a distribuição e fabricação dos produtos da Leap fora da China - e é aí que nós entramos. A estreia da Leapmotor no Brasil ocorreu em novembro de 2025.


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Na frente, o emblema LP no capô. Na traseira, o nome LEAPMOTOR por extenso, também estilizado.

A ideia inicial da Leapmotor era chegar ao Brasil com o T03, um hatchback subcompacto que seria rival de modelos como o Renault E-Kwid e o BYD Dolphin Mini, porém a estratégia sofreu alterações e a montadora optou por começar com dois SUVs: o médio B10 e o grande C10, nosso avaliado da vez. O C10 já é comercializado normalmente, mas o B10 ainda será lançado.


O C10 hoje é oferecido por R$204.990 na versão BEV, puramente elétrica, e por R$219.990 na híbrida REEV (sigla em inglês pra "veículo elétrico com extensor de autonomia"), valores que já passaram por aumentos desde o lançamento, mas que se mantém atraentes em vista da concorrência que se nivela em preço, composta integralmente por SUVs médios.


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Abaixo do capô da versão BEV se encontra um "frunk" de 32 litros.

Força silenciosa

O C10 é movido por um motor elétrico montado no eixo traseiro, capaz de gerar até 218cv e 32,1kgfm, alimentado por uma bateria de 69,9kWh. Pesando 2.007kg nessa configuração, o C10 vai de 0 a 100km/h em 8,3 segundos e roda até 338km segundo o pessimista PBEV, do Inmetro; já no WLTP, mais otimista, a autonomia é de 420km. No mundo real, estimamos entre 370 a 390km.


O SUV chinês possui quatro modos de condução que impactam fortemente na autonomia: Eco, Conforto, Esportivo e Personalizado, cada qual com seus ajustes de intensidade da frenagem regenerativa e do nível de aceleração. O Personalizado é o melhor, pois permite que você combine os fatores como desejar, tipo uma aceleração máxima com condução confortável, entre outros.


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Interior traz revestimento sintético OEKO-TEX escurecido com as colunas e teto em forro claro.

Bons modos orientais

O C10, como um bom chinês dos tempos modernos, traz uma lista recheada de recursos e tudo é de série, sem opcionais. Há itens como: sete airbags, iluminação totalmente por LEDs, faróis de neblina, teto panorâmico com cortina, rodas aro 20, sistema de som com 12 alto-falantes (incluindo um subwoofer) e 840w, painel de instrumentos 100% digital, câmeras em 360º e muito mais.


O conjunto de recursos ADAS é completo e, no mais, temos sensores de estacionamento na frente e atrás, bancos dianteiros com aquecimento e ventilação, iluminação ambiente no painel e nas quatro portas, etc.. Ainda assim, algumas faltas são inexplicáveis mediante tanto "recheio" como a ausência de Park Assist e de retrovisor fotocrômico; não desabona, mas é estranho.


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Bancos dianteiros contam com ajustes elétricos e há memória para o do motorista.

Novos tempos, né? Pois é...

A primeira impressão ao olharmos o C10 pessoalmente é bastante positiva, pois o utilitário passa uma ótima sensação visual; há fartura de detalhes em preto brilhante na parte externa e pouquíssimos cromados ou prateados, o que deixa o visual absolutamente sóbrio por todos os cantos. As rodas de 20 polegadas são em grafite e casam com o porte avantajado do SUV.


Por dentro, contudo, a cabine causa espanto; os únicos botões são os do volante e os de abertura dos vidros nas portas, só. Até as saídas de ventilação ficam escondidas e são operadas eletronicamente pelo multimídia, o que deixa o interior um tanto insosso de modo geral. Pelo menos é tudo bem acabado e silencioso, mas podia ser um pouco mais convencional. Um POUCO.


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Central multimídia é chamada de Leap One e traz tela de 14,6 polegadas.

O verdadeiro desafio, na verdade, começa assim que você fecha a porta e se prepara pra entender o carro e, então, colocá-lo em movimento pelas ruas. Não há botão de partida: pra ligá-lo, basta colocar a chave (que é um cartão NFC idêntico ao seu cartão bancário) no carregador por indução ou digitar um PIN de quatro números na central multimídia. Pronto.


Quase tudo, aliás, é feito pela central: ajuste das saídas de ar, modo de condução, ar condicionado, luzes... Espelhos? Você habilita o ajuste no multimídia e regula pelos botões no volante, tal qual no Volvo EX30. As únicas funções "analógicas" ainda são as setas, farol alto e limpadores, todos reunidos na haste à esquerda do volante. Ah: os bancos também são.


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Vidros traseiros são escurecidos de fábrica.

Aqui começam as críticas diretamente negativas: a falta de uma chave convencional incomoda, pois você precisa encostar a chave-cartão no retrovisor pra travar ou destravar o veículo. Dá pra fazer isso (e até outras coisas legais) pelo app da Leapmotor no seu celular, porém ele só funcionará se a sua conexão com a internet estiver boa - e a do carro também.


Você pode, por exemplo, ligar o ar condicionado remotamente, fechar a cortina do teto panorâmico, abrir o porta-malas... coisas úteis. Por outro lado, se for desatento(a), pode acabar trancando o carro com a chave dentro e aí precisará esperar a estabilização da conexão pra resolver a questão. São problemas que não existiriam com uma chave presencial padrão.


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Console central é vazado. Em cima ficam porta-copos e carregador por indução; embaixo, nicho seco e portas USB/12v.

Levei cerca de 10 minutos me entendendo com o carro antes de retirá-lo da concessionária pra descobrir onde estavam as configurações e tudo o que ele podia fazer. A dica é encarar o C10 exatamente como o seu celular: qualquer coisa que quiser ajustar nele pode ser encontrada na guia Configurações, representada pelo ícone universal da engrenagem.


E ó: ele faz muita coisa. Sâo várias seções de parâmetros, mas felizmente é (quase) tudo bem óbvio com interrogações ao lado pra explicar os recursos menos óbvios, bem como animações exibidas no próprio multimídia. Há a possibilidade de configurar perfis pra salvar suas preferências caso divida o carro com outra pessoa, o que ajuda a poupar tempo e a necessidade de lembrar de tudo.


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São 2,82m de entre-eixos, mais do que em um Jeep Commander. O espaço interno é excelente pra todos.

Com tudo ajustado, coloco o câmbio em D pela alavanca à direita do volante e saio da loja. Nos primeiros metros já percebo a pegada do C10: conforto e sobriedade. O isolamento acústico é muito bom e a movimentação é absolutamente suave, digna de carro europeu. A direção é bem direta e o SUV quase parece um carro menor ao volante; de início, usei o modo Conforto.


Sendo bem direto: ao volante, quase tudo me agradou plenamente. O desempenho não te gruda no banco, mas não falta quando necessário; achei a autonomia justa diante do peso e do porte dele e a frenagem regenerativa, de igual modo, agradou por oferecer diferentes ajustes. Até a suspensão, que é independente nas quatro rodas, agradou, mas devia filtrar melhor os defeitos do piso.


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Pneus são 245/45 R20 nas quatro rodas.

A vida diária ficou mais fácil depois que entendi a navegação pelo multimídia, contudo a sensação de minimalismo incomodamente excessivo não passou. Além da chave, outro ponto são as maçanetas embutidas; elas seguem o estilo do Megane E-Tech, mas, no SUV francês, elas se "ejetam" eletronicamente. No C10, é preciso acioná-las manualmente e há o risco de prender os dedos.


As saídas eletrônicas de ar condicionado também merecem nota porque, bem... soam como uma solução pra um problema que nunca existiu. A ideia nasceu no Porsche Taycan (até onde se sabe) e devia ser abolida, pois é irritante. Há duas pré-definições (Direto e Indireto) e o ajuste pessoal, mas fazer isso com o carro em movimento pode, inclusive, ser perigoso.


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Saídas de ar ficam escondidas entre os vãos do painel principal.

O que mais agrada no C10, além da condução, é o capricho no acabamento interno. Tudo é bem montado e as quatro portas trazem os mesmos revestimentos, detalhes e até mesmo as guias de LED da iluminação ambiente personalizável. Sobre segurança, ele também se destaca: conseguiu nota máxima no Euro NCAP e no C-NCAP, além dos recursos ADAS que funcionam bem.


Ainda assim, é difícil não pensar na eventualidade de um defeito no multimídia - e em tudo que você sofreria caso isso acontecesse. Carros como o C10 suscitam esse tipo de preocupação e é justamente por isso que o mercado global tem clamado pela volta dos botões físicos pra funções elementares, sem deixar tanto poder concentrado em um único aparelho.


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Há projetores em LED tanto nos faróis principais quanto nos de neblina.

E aí: vale a pena dar uma chance pro novato brilhar?

Se você precisa de um SUV desse tamanho, com certeza vale. Nada nessa faixa de preço entrega tanto espaço interno pra família e, ainda por cima, um ótimo porta-malas de 465 litros. Não quer partir pra eletrificação pura? Tudo bem: coloque mais 15 mil na compra e leve o híbrido cujo motor a combustão serve apenas como gerador de energia. Tem pra todos os gostos.


Por outro lado, se o minimalismo excessivo te incomoda, é melhor pensar em outro... ou tentar se acostumar, o que não é impossível. O fato é que a Leapmotor chega com as "costas quentes" da Stellantis, o que traz um diferencial interessante em posicionamento e confiabilidade; a única coisa que me preocuparia, como eventual proprietário, seria a questão da central multimídia.


Câmeras em 360º, sensores de ponto cego... Fartura de recursos de segurança agrada.

Nenhum bug ou travamento aconteceu durante nosso teste, mas a possibilidade sempre existe. Outro ponto é que a rede de lojas ainda é limitada: são 36 concessionárias em 29 cidades, porém estamos falando de uma montadora estreante por aqui, o que é normal. Com o tempo, a rede autorizada vai se expandir e atingir novos municípios, aumentando as possibilidades do público.


O primeiro contato com o C10 foi interessante e reforça a expectativa de conhecer os demais produtos da empresa. Acredito que o REEV será o preferido do público, embora o BEV faça mais sentido pra quem não pensa em fazer viagens longas; já as intermunicipais são feitas com tranquilidade, como os 32% que gastamos andando 130km entre cidades.


Mas é importante ressaltar algo antes de encerrarmos: várias coisas no C10 são configuráveis em diferentes aspectos, então vale a pena explorar essas configurações pra descobrir como o SUV lhe agrada mais. É possível ajustar o tipo de surround do som, equalização completa e até mesmo a intensidade da frenagem... personalizações dignas de um smartphone. Com rodas.