Novo AMG GT de quatro portas enterra a Mercedes que conhecemos e aprendemos a gostar
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| Peço desculpas por ter que mostrar isso a vocês. Foto: Divulgação |
Eu era fã da Mercedes-Benz. Nasci em 1990 e cresci tendo os Mercedes como referências de "carrão", dentre outras marcas alemãs que também moram no meu coração. Apesar disso, a Mercedes sempre mexeu mais comigo do que as outras; não é à toa que vários dos meus sedans dos sonhos foram fabricados por ela. Nunca tive um, mas isso não me impediu de ser fã.
Acontece, porém, que eu não sou um fã cego, daqueles que passam pano pra tudo. Eu sou fã daquilo que funciona. Que respeita não apenas os consumidores e entusiastas, mas também os valores do passado que pavimentaram o caminho para o presente. Eu sou fã da "aura" que consegue transformar os clientes em "marketeiros", saca?
A Mercedes era isso. Cada anúncio de futuro lançamento deixava as pessoas ansiosas - quem podia e quem não podia comprar. Quando finalmente chegava nas lojas e ruas, a expectativa era pra ver as novidades pessoalmente, mas nesse dia 20 de maio de 2026, tudo isso acabou. A Mercedes cansou e, ao invés de combatê-la, resolveu abraçar sua própria megalomania.
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| Sério. Desculpa, de verdade, mas é preciso mostrar. Foto: Divulgação |
A coisa grotesca que você viu nessas duas fotos iniciais da matéria é a nova geração do AMG GT de quatro portas, que a Mercedes chama de AMG GT 4-Door Coupé. Caso não se lembre dele, tô falando daquele coupezão de quatro portas que era a versão familiar do AMG GT, lançado em 2018 com motores V6 e V8 pra ficar no lugar do finado CLS63. Lembrou agora?
Ele nunca foi uma unanimidade em design, é verdade, mas ainda conseguia ficar legal quando era corretamente configurado; fora que também era capaz de agradar aos ouvidos com os belos roncos dos V6 e V8 bi-turbinados que o equipavam. Ele passou por umas leves reestilizações, ganhou eletrificação e ficou ainda melhor, ou seja: a receita funcionava e tudo ia bem.
O problema é que os tempos são outros e a Mercedes-Benz quis deixar pra trás tudo aquilo que a trouxe até aqui, por mais que ela diga o contrário. Depois do fracasso do C63 com motor de quatro cilindros híbrido, hoje conhecemos o Mercedes mais feio de toda a história da marca e, como se não bastasse, ele também abandonou os V6 e V8, mas pra se tornar um elétrico puro.
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| Eis o AMG GT 4-Door original. Não era um primor de beleza, mas conseguia agradar (e roncava muito bem). Foto: Divulgação |
Como eu sempre digo: adoro carros elétricos, mas não tolero que nomes consagrados por uma receita específica sejam transformados em elétricos, especialmente porque isso costuma resultar no fim da receita original. Foi exatamente o que aconteceu com o novo AMG GT 4-Door, mas esse nem é o meu maior problema com ele. O problema é que ele é FEIO.
Medonho. Grotesco. Sem qualquer harmonia. Estranho. Parece um peixe alienígena descoberto nas profundezas de algum planeta a muitos anos-luz da Terra. A dianteira parece te olhar com uma cara feia enquanto a traseira destoa completamente do resto, parecendo que tentaram fazer um conceito inspirado nos anos 80 quando tentavam imaginar o veículo do futuro.
Quer dizer: parece um carro antigo que quer tentar parecer futurista. Confuso, não é? Só não é mais confuso do que o interior, no qual a Mercedes introduziu duas telas grosseiras de 14 polegadas justapostas - uma como multimídia ao centro, outra exclusiva do passageiro à direita, ignorando a sociedade que clama pelo retorno dos práticos botões. Não dá pra piorar, certo?
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| Não vou comentar nada aqui. Me recuso. Foto: Divulgação |
Dá sim. Dá e muito. A conta oficial da @mercedesamg no Instagram já começou a publicar os materiais midiáticos sobre a novidade e, como não podia ser diferente, choveram críticas de todas as partes sobre, literalmente, todos os aspectos do novo GT de quatro portas. Dos que eu vi, pelo menos, não encontrei uma mísera alma fazendo qualquer mínimo elogio que fosse.
O que a conta fez? Respondeu alguns deles em tom lacrador, tal qual faria uma adolescente usando os hormônios em fúria pra retrucar "as recalcadas" com inveja do "look" dela. Não precisa acreditar em mim: é só abrir as postagens sobre o modelo e ver os comentários - todos em inglês. A empresa que fazia sonhos, hoje faz piadas e não gosta quando os outros riem delas.
SLR McLaren, C63 V8, SL, Classe E W211, Hammer... não faltam ícones do passado que justifiquem o amor e o desejo pela Mercedes de anos atrás. A de hoje, contudo, decidiu se enterrar embriagada em uma megalomania sem propósito, sem fundamento e o pior: sem retorno, sem apreço. Onde ela quer chegar? O que ela quer dizer ao mundo? O que ela espera conseguir?
Não vou fazer melodrama e dizer que a Mercedes morreu porque sei que essas coisas são cíclicas e dependem de quem está no comando naquele determinado momento, porém é 100% seguro dizer que a fabricante está cavando sua própria cova e que ela pode ficar muito funda. Dá pra sair e tentar se reerguer, mas pode ser que o processo se torne dispendioso demais.



