Como o inédito Renault Boreal se sai no dia-a-dia? Confira nosso teste completo

Renault Boreal envelhece os rivais e é o carro do futuro pra quem não busca eletrificação


Novo SUV médio da marca francesa esbanja beleza e mescla um bom nível de tecnologia embarcada a um comportamento bastante neutro. Testamos por uma semana e 400km.


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Na versão de topo Iconic, a cor Azul Mercure só está disponível com o teto em preto e custa R$2.000 à parte.

Lembra do "Renaulution"? É como a Renault chama seu plano de renovação pra década em que estamos, unindo seu nome ao termo "revolution" (revolução em inglês). Ele foi anunciado em 2021 e é por sua causa que temos modelos como o Kardian (que já testamos três vezes) e o espetacular Megane E-Tech. Dessa vez, nós conhecemos o mais novo integrante da família.


É o Boreal, um inédito SUV médio que foi lançado em outubro de 2025 e é fabricado em São José dos Pinhais, no Paraná. O Boreal representa a primeira ofensiva oficial da Renault entre os utilitários médios no mercado brasileiro e quer convencer através do visual exótico, do bom nível de equipamentos de série e da fartura de suas acomodações. Será que ele consegue?


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Lanternas do Boreal trazem lentes incolores; quem dá a coloração são os LEDs quando acesos.

Mistura bem feita

O Boreal é construído sobre a plataforma RGMP, uma versão modificada da base CMF-B na especificação de baixo custo, projetada pra mercados emergentes. É a mesma plataforma utilizada pelo Kardian, seguindo o conceito de modularidade de outras bases conhecidas como as da família MQB, responsáveis por atender desde o Volkswagen Polo até o Tiguan, entre muitos outros.


Além disso, outras partes de sua mecânica também são conhecidas do povo brasileiro como o motor turbinado que estreou em terras brasilis no facelift do Captur, desenvolvido em parceria com a Nissan e a Mercedes-Benz, e a transmissão DW23 que estreou no Kardian. Antes que você pergunte: não. Não há qualquer nível de eletrificação no Boreal. É um ICE puro.


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Motor TCe é conhecido pelo código técnico HR13DDT.

Filho preferido

O Boreal é o 4º produto da Renault no Brasil a utilizar o motor 1.3 turbo "TCe", de quatro cilindros e flex, capaz de gerar até 163cv e 27,5kgfm de potência e torque máximos; hoje, além do Boreal, ele também equipa o Duster, mas já esteve na picape Oroch por algum tempo. Já a transmissão é a mesma caixa de dupla embreagem e seis marchas que equipa o Kardian.


Entregando seu torque máximo desde os 1.750rpm, é um motor de desempenho suficiente pros 1.438kg do Boreal nessa versão, equivalendo a um SUV compacto com bloco 1.0 turbo. Nossa média com gasolina, modo Comfort, percurso misto e carro cheio na maior parte do tempo foi de 12,5km/l, dentro do esperado pra um veículo desse segmento e porte.


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Cabine é digitalizada na medida certa, sem excessos. Painel traz tela de 10" configurável.


Melhor de três

O Boreal é vendido nas versões Evolution (R$179.990), Techno (R$199.990) e Iconic (R$214.990)*, nossa testada da vez. De série, ele já vem desde a configuração mais barata com: conjunto ótico totalmente em LEDs, multimídia de 10", 6 airbags, ar-condicionado dual zone, sensores dianteiros e traseiros de estacionamento, rodas aro 18, câmera de ré, pacote ADAS com 13 recursos, etc.


A intermediária Techno acrescenta iluminação ambiente com 48 cores, faróis de neblina em LED, painel digital de 10 polegadas, bancos dianteiros elétricos, entre outros. Já a top de linha Iconic fecha com teto solar panorâmico, som Harman Kardon, rodas aro 19, acabamento interno exclusivo, 24 assistências ADAS, massagem pro banco do motorista, entre outros.


*valores segundo a tabela de mar/26


Variante de topo traz acabamento interno em "Deep Blue".

Nem muito pra lá, nem muito pra cá

Rodamos 400 quilômetros com o Renault Boreal e as expectativas estavam muito altas, afinal de contas, além de ser a primeira investida da montadora entre os médios, a promessa do plano "Renaulution" é a de entregar veículos superiores em tecnologia embarcada, segurança, performance e acabamento. Vimos muito disso no Megane E-Tech, por exemplo.


O primeiro contato ao vivo com o Boreal causa espanto. Suas linhas não lembram nada do que costumamos ver pelas ruas brasileiras e são bastante excêntricas, mas o conjunto funciona e impacta; não foram poucos os que olharam pra ele enquanto passava ou que queriam tirar dúvidas. Fazia tempo que um SUV médio não encantava o brasileiro desse jeito.


A mescla de materiais é boa e deixa o ambiente mais sofisticado.

Por dentro, as boas impressões continuam; há o equilíbrio certo entre modernidade e tradição, com botões posicionados por vários lugares pra realizar funções específicas e, ao mesmo tempo, duas telas grandes e de alta resolução bem na frente do motorista. Comparado aos interiores dos rivais tradicionais, a cabine do Boreal parece anos-luz à frente.


Duas coisas, porém, incomodaram muito: o ajuste de profundidade do volante é muito limitado e o banco do motorista, quando elevado, rouba muito espaço das pernas, obrigando quem é alto a guiar nas posições mais baixas do assento. Se você prefere dirigir mais no alto, como eu, vai se incomodar bastante; ao menos o ambiente é aconchegante e caprichado.


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No console central, você tem todos os botões de operação do ar-condicionado, pisca-alerta, trava/destrava de portas, entre outros.

Dada a partida, mal se ouve o 1.3 turbo sendo acordado lá na frente, o que mostra o trabalho acertado no isolamento acústico. A propósito, tal qual os carros da Stellantis, você é obrigado a desligar algumas assistências toda vez que dá a partida, o que é irritante; elas deveriam ficar salvas no seu perfil de condutor junto das demais preferências. Pelo menos é fácil desligar tudo.


Com tudo ajustado, coloco o Boreal em movimento e percebo um carro de condução sublime, absolutamente pacata, o que me diz que a Renault mira em um consumidor mais maduro. Mesmo no modo Comfort (o padrão), o câmbio chega a parecer um automático convencional por causa da "preguiça" na hora de passar marchas, mas não desagrada. Só não empolga.


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Espaço traseiro é muito bom, assim como o porta-malas.

"Então você quer dizer que é lento, certo, Ravito?"

Não. É justamente aí que entra o adjetivo "neutro" a respeito do comportamento. O Boreal não pende pra nenhum dos lados: nem moroso, nem arisco demais. É pacato no dia-a-dia e entrega um desempenho satisfatório quando é exigido; exceto pelo kickdown demorado, não falta motor nas horas importantes como ultrapassagens e coisas do tipo, o que é bom.


O mesmo vale pro conjunto de suspensão; não filtra tanto as imperfeições do asfalto, mas entrega um acerto dinâmico surpreendente pra um carro desse porte e equipado com eixo de torção na traseira. Acredito que parte da culpa dessa aspereza seja dos pneus de perfil 55 que calçam os aros 19; compostos de perfil mais alto ajudariam a amortecer melhor tais defeitos de pista.


São 4,55m de comprimento e 2,70m de entre-eixos com 522 litros de porta-malas.

Lembra que eu falei das expectativas nas alturas? Chegou a hora de falar delas, pois preciso dizer que elas não foram atendidas. Sendo o mais direto possível: gostei do Boreal como um todo, porém imaginava muito mais. Na verdade, eu esperava uma experiência parecida com a que tive no Megane E-Tech e não foi o que aconteceu. O que isso significa?


Significa que é um produto bom e com potencial de agradar, mas que pode, talvez, perder o brilho rápido demais. Meu maior incômodo foi com a posição de dirigir, como mencionei antes: nisso, rivais como o Jeep Compass, VW Taos, Ford Territory e Toyota Corolla Cross são superiores. No resto, porém, é justo dizer que eles ficam atrás em quase tudo e é aí que o Boreal pode te fisgar.


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Faróis trazem projetores biLED com ajuste de altura do facho e os de neblina também são por projetores de LED.

"Entendi, Ravito. Devo dar uma chance a ele?"

Com certeza. Apenas encare-o como o que ele é: não como um representante da casta europeia da Renault (como eu fiz) e sim como a evolução de uma filial brasileira. Não existe qualquer comparação com Duster, Captur e outros Dacia que já foram comercializados por aqui; o Boreal mostra que a marca fez o dever de casa e criou um produto alinhado com o que o mercado pede.


É uma fuga interessante da mesmice dos rivais e dos eletrificados a um preço agressivo, especialmente nas versões mais baratas; a top só vale se fizer questão dos mimos extras. Por 180 mil você leva um SUV médio com mais espaço e desempenho do que a maioria esmagadora dos compactos, hoje caros demais pelo que oferecem. Questão de perspectiva (e expectativa).


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Atrás, apenas o nome Boreal e o emblema Renault, sem menções a versão ou motorização.

A qualidade das telas é ótima, mas a do painel carece de uma taxa de atualização mais alta; às vezes você reduz pra passar em um radar e o velocímetro demora a mostrar a velocidade atual, o que acaba te fazendo frear demais desnecessariamente. Já o som da Harman Kardon é excelente, com alto-falantes espalhados pela cabine e uma qualidade cristalina, sem distorção.


Há superfícies de toque suave por vários lugares e uma mescla elegante de materiais, contudo as portas traseiras são mais simples (como em 90% dos rivais) e não trazem as guias de iluminação ambiente em LED. O teto panorâmico é outro destaque, pois a abertura é bem grande e deixa os passeios em dias frescos mais interessantes. Em suma, um bom companheiro no geral.